
O dia 13 de maio é uma data de grande relevância no Brasil, marcada principalmente pela assinatura da Lei Áurea, em 1888, que aboliu oficialmente a escravidão após mais de três séculos da exploração do povo negro. Em 2026, o ato completa 138 anos.
Embora historicamente celebrada como o Dia da Abolição, a data também considerada um dia de reflexão crítica sobre a exclusão social dos negros pós-abolição, uma vez que essa população foi declarada livre, mas não recebeu acesso às oportunidades adequadas para se manter.
A reportagem do portal Grande Picos conversou com integrantes do movimento negro da cidade de Picos sobre a data.
O coordenador do Grupo Percussão Origem, Luiz Paulo Barão Vieira, explicou a situação do negro brasileiro após a assinatura da abolição.

“O Brasil foi um dos últimos países a promover a abolição da escravatura porque, principalmente, a Europa já exigia que o seu maquinário fosse utilizado também em terras brasileiras. [...] A história está registrada, mas é importante se dizer que muito, muito, muito se lutou para que a verdadeira abolição da escravatura acontecesse. Nós não recebemos indenização alguma, o negro norte-americano recebeu seis hectares de terra e uma mula para poder produzir. Ao negro brasileiro só disseram: ‘Beleza, você está liberto’.", afimou.
O jornalista e professor Chagas Nago também comparou a situação do Brasil com a de países vizinhos, destacando a falta de políticas públicas que atendessem o grupo.

“É uma data para você fazer uma análise sobre a conjuntura do negro na sociedade. No dia 13 de maio, a lei nº 3.353 [foi] assinada pela Princesa Isabel [...] Uma lei falha [...] que não beneficiou esses escravizados com nenhuma política pública. [...] Não foi dado a essas pessoas nenhum ressarcimento, [elas] não foram indenizadas, ao contrário dos negros aqui próximos, em Cuba, ou os próprios negros norte-americanos que ganhavam uma mula ou alguns trocados.”, pontuou.
Seguindo essa mesma linha de raciocínio, o coordenador do Grupo Cultural Adimó, Mano Chagas, ressaltou que ainda há a necessidade de lutar por reparação para a classe negra no Brasil.

“Leis existem desde quando esse país foi feito. O problema é que essas leis não são executadas na prática. A gente pode, por exemplo, entender que se um negro trabalhava e depois é libertado, que foi [o que aconteceu com] essa falsa abolição, aí jogam esse negro, que era trabalhador rural, na rua, sem terra, sem nada [...] não houve libertação.”, declarou.
O coordenador do Movimento pela Paz na Periferia, Ted Reep, pontuou os desafios enfrentados atualmente.

“A gente vê que em todas as seleções, e por isso eu acho importante a questão das cotas raciais nos ambientes institucionais - que dizem que 20% das pessoas que trabalham em determinadas empresas têm que ser negras -, a gente não vê isso. A gente, como povo negro, não se enxerga em espaços que são para todo mundo. [...] A gente vê nesses espaços que a gente não tem a ocupação que deveria ter.”, explicou.
O pastor Francimário Sousa ressaltou a representatividade do dia 13 de maio e avaliou a aplicação do estatuto da igualdade racial aprovado no Brasil.

“O 13 de maio, para nós, na realidade é um marco histórico, digamos assim, embora esse marco não nos trouxe o que deveria ter trazido. [...] Essa liberdade sem oportunidade fica um tanto destoada. A criação do próprio estatuto [da igualdade racial] nós diríamos que é uma boa, porém, existe muita coisa a ser conquistada. [...] Ter o estatuto é um bom início, mas acredito que não está ainda surtindo o efeito que deveria surtir no nosso país.”, destacou.
Por fim, o ativista Benevaldo Sousa falou sobre a luta do movimento negro atualmente. Na ocasião, ele ainda destacou o reconhecimento da escravidão como o mais grave crime contra a humanidade já cometido.
"Hoje, nós do Movimento Negro, nós pessoas negras, nós coletivos de negros de Picos, do estado do Piauí e do Brasil apresentamos as nossas versões para a sociedade brasileira que é essa questão da rebeldia contra a escravidão, que é reconhecida mundialmente como o maior crime contra a humanidade.", finalizou.
Confira as entrevista
Luis Paulo Barão
Mano Chagas
Chagas Nago
Ted Reep
Francimário Sousa
Benevaldo Sousa




