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O Brasil tem um modelo considerado exemplar quando o assunto é calendário de vacinação, mas a oferta de vacinas no Sistema Único de Saúde (SUS) não tem sido suficiente para garantir a taxa desejável de cobertura vacinal da população.

Por causa disso, em 2017 o país teve o menor índice de vacinação em crianças menores de um ano em 16 anos. Todas as vacinas recomendadas para adultos estão abaixo da meta de cobertura ideal.

Além disso, até dezembro de 2018, o país registrou mais de 10 mil casos de sarampo. A doença estava erradicada no Brasil, mas a importação do vírus vindo da Venezuela provocou dois surtos: um no Amazonas e outro em Roraima.

Se até fevereiro de 2019 o país ainda tiver novos casos, pode perder o certificado de erradicação da doença concedido pela Organização Mundial de Saúde.

Mas o que leva às baixas coberturas e consequentemente aos surtos de doenças antes erradicadas?

Através da Lei de Acesso à Informação, o G1 obteve dados relacionados aos investimentos em produção e distribuição de vacinas e gastos com campanhas.

Gastos com campanhas

O G1 pediu ao Ministério da Saúde o histórico de gastos com campanhas nos últimos dez anos, mas a pasta alegou não ter sistema que pudesse buscar os dados no período entre 2008 e 2014, atendendo o pedido da reportagem apenas parcialmente.

O G1 questionou ainda sobre o quanto é gasto especificamente com veiculação em campanhas de TV, banners e internet. O ministério não especificou quanto é destinado para cada um.

Os investimentos em campanhas de vacinação como um todo evoluíram entre 2015 e 2018. Até o final de 2018, os gastos com campanhas de vacinação chegarão ao patamar de R$ 58 milhões, maior valor em quatro anos. Em 2015, por exemplo, foram gastos mais R$ 33 milhões entre campanha de multivacinação e específicas, como contra o HPV.

Este ano, mais de R$ 20 milhões foram destinados apenas para campanha conjunta de poliomielite e sarampo que já estava prevista como parte do que o ministério chama de “campanha de seguimento”.

Este tipo de campanha acontece em média a cada três ou cinco anos, para reforçar a proteção das crianças contra as doenças e manter o Brasil sem transmissão disseminada dos vírus. É por isso que a cada ano, as campanhas tem um foco e um calendário diferente.

Em 2017, por exemplo, não houve campanha específica para sarampo e poliomelite.

A campanha de 2018 já estava nos planos mesmo antes dos surtos em Roraima e no Amazonas. Segundo o Ministério da Saúde, nas regiões mais afetadas a vacinação foi apenas adiantada.

Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, a vacinação de forma geral tem que ser feita rotineiramente, seguindo o calendário adequado para cada fase da vida.

“As campanhas que a gente faz periodicamente tem alguns intuitos e o calendário vacinal, seja da criança, do adolescente ou do adulto, não deve viver de campanhas. Se não, a gente faria uma campanha para sarampo, uma para pólio, outra para meningite… E a gente ia ter campanha a cada quinze dias e esse tipo de estratégia não funciona”, explica.

Cobertura vacinal baixa

Em 2018, a campanha de vacinação de crianças de um a cinco anos de idade contra sarampo e pólio atingiu a meta de 95% após prorrogação, mas a cobertura em adultos continua abaixo da meta. O mesmo vale para a cobertura acumulada de outras vacinas importantes.

Na tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), por exemplo, a taxa de cobertura é baixíssima: 4,7% no acumulado entre 1994 e 2018. A meta é 95%.

Para Kfouri, o surto de sarampo está diretamente associado aos números ruins na cobertura vacinal.

“A nossa última epidemia foi no Ceará em 2016. Foi no encerramento dessa epidemia que recebemos a certificação da eliminação do vírus. Essa era a nossa situação até o surto na Venezuela e a migração na nossa fronteira em Roraima primeiro e depois no Amazonas”.

“A cobertura vacinal não estava adequada, indivíduos da Venezuela com sarampo, encontraram vários suscetíveis. Isso reflete a nossa baixa cobertura e não é culpa dos venezuelanos, se fosse um italiano, um russo ou americano… a responsabilidade é nossa que não estávamos devidamente vacinados”- Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização.
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Produção e distribuição de vacinas

Atualmente, o Brasil produz as vacinas de sarampo e poliomielite que usa na instiuição Biomanguinhos/Fiocruz. Segundo o Ministério da Saúde, não há problema de desabastecimento nos postos de saúde, mas a distribuição fica a cargo dos governos estaduais e municipais.

Os números não são regulares. Ao longo dos anos, houve oscilação nas quantidades de doses anuais recebidas pelos estados.

Em Roraima, por exemplo, em 2012 foram recebidas mais de 16 milhões de doses de vacinas tríplice viral e contra poliomelite. Já em 2018, foram cerca de 5 milhões de doses.

Já o Amazonas chegou a receber mais de 55 milhões de doses em 2008. Em 2018, o número é de pouco mais de 22 milhões de doses.

Para o enfrentamento do surto de sarampo em 2018, o ministério disse ter encaminhado ainda 14,8 milhões de doses da vacina tríplice viral aos estados de Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe e Distrito Federal para atender a demanda dos serviços de rotina e a para a realização das ações de bloqueio.

Salas de vacinação

O Brasil tem 36.654 salas de vacinação abertas e funcionando em 2018 entre públicas e privadas. De 2012 até 2018, o aumento no número de salas no país foi de 8%, um aumento de 2.817 salas.

O número é considerado bom, já que o Brasil não faz agendamento de vacinas na rede pública e todas elas devem estar disponíveis para a população a qualquer dia para que o calendário vacinal seja cumprido.

Neste período, apenas 6 estados perderam salas: Pará (9 salas a menos), Amapá (12 salas a menos), Espírito Santo (82 salas a menos), Paraná (3 salas a menos), Rio Grande do Sul (1 sala a menos) e Mato Grosso do Sul (31 salas a menos).

Por que as coberturas continuam baixas?

Para o ministério, parte do problema está na falta de conhecimento de parcela da população que não conviveu com as doenças como sarampo e poliomelite e desconhece as sequelas que elas deixam.

“Atualmente, o Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde contempla todas as vacinas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que são oferecidas pelo SUS a toda a população. No entanto, o sucesso das ações de imunização – que teve como resultado a eliminação da poliomielite, do sarampo, da rubéola e síndrome da rubéola congênita – tem causado, em parte da população e até mesmo em alguns profissionais de saúde, a falsa sensação de que não há mais necessidade de se vacinar”, diz a nota.

O calendário extenso de vacinação, uma conquista dos avanços da ciência, também faz com que algumas pessoas não voltem para completar as doses necessárias em alguns casos ou priorizem uma ou outra vacina.

As notícias falsas sobre as vacinas e supostos efeitos adversos também são um problema. Em agosto de 2018, o Ministério da Saúde criou um canal exclusivo para combate às chamadas fake news. Através de um número de Whatsapp, a pessoa pode encaminhar uma mensagem duvidosa que foi recebida e checar diretamente com o ministério.

Uma página do ministério também agrega um compilado de artigos com os boatos recebidos.

Além disso, o sistema para o controle das vacinas no Brasil ainda não é o ideal e a carteira de vacinação em papel ainda é uma realidade. A ideia é informatizar o sistema de registro em todo território nacional para que todos os brasileiros consigam acessar seus dados de vacinação com a possibilidade de recuperação dos dados.

A informatização do sistema facilitaria a coleta de dados pelo Ministério da Saúde e evitaria os chamados “bolsões” de pessoas não-vacinadas.

Vacinação que beneficia muitos

Kfouri lembra que foram 12 mortes por sarampo no Brasil em decorrência do novo surto nos estados de Roraima e Amazonas, metade das mortes em crianças menores de um ano de idade.

“Ou seja, crianças que ainda não eram candidatas à vacinação. Essas pessoas se beneficiariam, ou seja, não pegariam sarampo se todos ao seu redor estivessem vacinados. Então, reforça a ideia da vacinação não só como proteção da pessoa que recebe a vacina, mas também para aqueles que não podem receber a vacina como menores de um ano, grávidas, indivíduos que tem comprometimento do sistema imune”, explica.

“Tem uma população que não pode receber a vacina ou que quando recebe não tem uma resposta adequada. Eles se beneficiam da vacinação de terceiros, da comunidade vacinada. Cobertura vacinal é fundamental e a gente tem que buscar isso para eliminar ou parar com a circulação do vírus entre nós”- Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização.

Em nota, o ministério informou ao G1 que a considera a campanha de vacinação de crianças em 2018 uma das mais importantes do ano.

“A campanha, em 2018, superou a meta de vacinar, pelo menos, 95% do público-alvo, atingindo 98% de cobertura, o que não vinha acontecendo desde 2014. A recomendação de uma cobertura vacinal homogênea no país é um trabalho constante e prioritário do Ministério da Saúde”.

G1

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