Violência policial em favelas do Piauí inspira filme selecionado a Cannes

Violência policial em favelas do Piauí inspira filme selecionado a Cannes

'Deixa a Chuva Cair' foi selecionado para festival que acontece em maio. História do documentário é baseada na vida do rapper Preto Kedé.

Bastidores de gravação do documentário Deixa Chuva Cair (Foto: Framme Produções)

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Inspirado na história de Preto Kedé e da música ‘Ira’, que fala sobre uso da violência policial na periferia de Teresina, o documentário ‘Deixa a Chuva Cair’ foi selecionado para o Festival de Cannes, que acontece em maio na França. A versão curta do filme conta como os meninos da Irmandade se juntaram através do rap para enfrentar o conflito de grupos rivais, e assim abordar outros temas mais universais, como racismo e contato com as drogas.

O diretor Juscelino Ribeiro conta que a ideia do filme surgiu junto com o edital Jovem.Doc, que selecionou dez projetos de documentários com 26 minutos sobre a relação dos jovens com o espaço público. Na época, os rappers Kedé e o Lu foram detidos por desacato ao gravarem um clipe denunciando uso da força policial para quem vive na favela e o caso ganhou repercussão na mídia.

“Isso me chamou muito a atenção porque, ao invés de esbravejar, eles gravaram um vídeo pedindo paz na comunidade.  Eu conversei com o Kedé, ele gostou da ideia do filme e após aprovação do projeto iniciamos as gravações em agosto de 2015 dentro da Vila São José, conhecida até hoje como zona de conflito. Foi um trabalho intenso, procuramos encaixar nos intervalos as entrevistas dos moradores e desta forma conviver com a comunidade, ouvir um pouco sobre como ela pensa, sente e vive”, comentou o diretor.

Apesar do roteiro feito e de conhecer o trabalho da Irmandade, Juscelino Ribeiro revelou ter descoberto a comunidade melhor durante as gravações e destacou a mobilização dos próprios moradores para produção do filme. As filmagens duraram duas semanas, mas o tempo foi o suficiente para a rotina na periferia.

“Temos muita alegria em poder dizer disso. A gente foi muito bem recebido na comunidade e buscamos sempre ter o máximo de respeito possível, mesmo sabendo que a nossa presença no bairro já causava uma interferência no cotidiano. Eu acho que o filme importante para autoestima da comunidade, sabe? Me lembra muito uma coisa que o próprio Kedé canta: que todos têm o direito de querer as coisas, de se acharem bonitos, de ter uma autoestima mais forte”, destacou.

Mesmo o projeto inicial sendo para um curta-metragem, o trabalho na comunidade deu tão certo, que a Framme Produções decidiu fazer uma versão longa do documentário, que deve ficar pronta no segundo semestre de 2016.

Segundo Juscelino Ribeiro, a nova versão vai debater outros temas que não couberam no curta, como por exemplo, depoimento de mães que tiveram os filhos envolvidos com o conflito de gangues e drogas.

O rap como transformação
Negro, tatuado e cantor de rap. Todos os esteriótipos, que segundo Cledeilson Barreto de Araújo, 27 anos, mais conhecido como Preto Kedé, são motivos de preconceitos, mas também fonte de inspiração para letras oprimidas, que falam de exclusão para quem vive na periferia.

Rapper Preto Kedé é o personagem principal de documentário (Foto: Catarina Costa/G1 PI)
Rapper Preto Kedé é o personagem principal de documentário (Foto: Catarina Costa/G1 PI)

A história do documentário ‘Deixa Chuva Cair’ é baseado na história do rapper, que desde criança gostou de desenvolver projetos sociais e através da música decidiu mudar a realidade da comunidade onde mora. Ao cantar liberdade e reivindicar os problemas sociais, Kedé conquistou o reconhecido do seu público e vem transformando a vida de jovens na periferia de Teresina.

“Sempre gostei de música, batida, de dançar e o estilo que eu me identifiquei mais foi o rap. Eu poderia ter seguido o caminho da marginalidade, como muitos irmãos que perdi para o crime, mas preferi fazer a diferença. Desde novo comecei a desenvolver trabalho social, seja um campeonato de pipa ou de bola, apresentação de circo e cinema. O projeto Irmandade cresceu e atualmente tem a adesão de toda a comunidade”, lembrou Kedé.

Fonte: G1 PI

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